Esta noite dormi mal

Aqui há uns tempos cometi a ousadia de comentar, na presença de jovens mães, que não tinha passado bem a noite.

“Duvido que esteja aqui alguém que tenha dormido bem a noite.” – foi a resposta pronta.
Num pequeno instante, as reacções saltaram. Como pipocas.

E foi assim que me calei quase instantaneamente, porque me senti a provar do meu próprio veneno. De nada valia a pena explicar a estas mães que eu vivi durante largos anos um estado zombie, que sei muito bem o que é estar no limite das minhas forças e paciência, que vivi vários internamentos de filhos, que também sei o que é estar eu mesma doente e ter filhos doentes, que sei o que é ter o pai ausente e ter de acudir a vários colos de pequeninos… enfim.

O que eu experimentei naquele dia, razão pela qual me calei no imediato, foi aquilo que eu acreditei  durante muito tempo, e ainda hoje é uma tendência para mim em muitas áreas: acharmos que aquilo que nós vivemos é mais difícil do que os outros vivem.

Não foram poucas as vezes, que perante uma mãe de filho único a queixar-se, eu tinha a resposta presente: “era tudo tão fácil quando tinha só um”. Ou quando uma mãe se lamentava de uma bronquiolite, eu pensava: “sei o que são bronquiolites há meses seguidos”. Quando alguém dizia que era impossível ir às compras com os filhos, eu dava uma gargalhada cínica: “Nunca deixei de ir às compras com filhos atrás”. Podia continuar o chorrilho de respostas que me tornavam a maior mártir da história da maternidade.

Ainda hoje caio facilmente neste tipo de julgamentos. Quando alguém se queixa de algo, minimizar a queixa (nem que seja em pensamento); ou também, ao contrário: quando alguém faz algo visto como extraordinário, desvalorizar esse esforço lembrando as inúmeras pessoas algures na história da humanidade que fizeram igual ou melhor (eu, incluída).

Este tipo de pensamentos não são nada bons, e muito menos cristãos – falo por experiência própria. Alimentam as nossas fraquezas. Se tendemos para a auto-comiseração, aumentam-na. Se tendemos para o ressentimento, alimentamos esse ressentimento. E por diante.

Outro dos perigos é resguardarmo-nos em conversas com “pessoas que nos compreendem”. Se por um lado é bom falar com pessoas que estão na mesma fase ou a passar pelo mesmo desafio, por outro isso convence-nos que só essas pessoas sabem das nossas lutas e nos podem ajudar.

Descobri que ver em perspectiva é sempre uma boa opção. Darmo-nos o benefício da dúvida. A história do copo meio cheio ou meio vazio. Claro que uma mãe que está privada de sono sabe que esta fase não durará o resto da vida e não encontra grande conforto no: “Isso vai passar”. Pode, até, ficar irritada com o “Ainda vais ter saudades”. Mas alargar a visão e buscar ouvir não só o que nos conforta ou agrada, pode parecer um contra senso, mas tenho aprendido que ajuda a olhar além de nós.

Experimento, há alguns anos, a presença de amigas que desejariam muito ter uma noite mal dormida. Mas não conseguem por nada engravidar. Foi com elas que aprendi a refrear os meus queixumes, numa primeira fase. O poder que um olhar triste e desejoso de ter esse tipo de angústias teve no modo de me expressar acerca dos meus dramas, foi muito grande. Já viram ou partilharam as lágrimas de alguém que vive infertilidade? Experimentem.

Desde aquele dia que peço ainda mais ajuda a Deus para me calar. Para me ajudar a reagir com amor, com compreensão e sem julgamento. Para que haja lugar a um desabafo (eu tinha mesmo dormido mal aquela noite graças a uma enxaqueca com aura), porque acredito no poder aliviador de um fardo. Às vezes, o silêncio é a melhor compreensão. Outras vezes, “vais conseguir ultrapassar, sei o que isso é”, e ainda outras: “nunca passei por isso, mas lamento muito” e sempre: “Vou orar por ti”.

“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. 
Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor.”
-excerto de 1 Coríntios 13-

Imagens retiradas daqui.

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