Perspectiva

Estamos mais ou menos a meio desta aventura deste lado, e há coisas que sei que nunca mais serão iguais: a forma de ver os que emigram e os estrangeiros. Hoje, sei o que é caminhar sem ser turista, apalpando códigos para não melindrar sensibilidades; sei o que é estar no meio de uma conversa e não estar a perceber nada (o sotaque do sul pode parecer um dialecto, em alguns circuitos); sei quão desajustada uma pessoa se pode sentir em determinadas circunstâncias, e podia continuar. Nunca tinha sido visitante de lado nenhum tanto tempo, nunca tinha feito um esforço para pertencer fora da minha cultura.

Hoje sei como pode ser fascinante e difícil, entusiasmante e desanimador, aventureiro e assustador. Eu, que sempre estive do lado de quem pertence, agora sei um pouco de como pode ser árdua a tarefa de querer fazer parte e não conseguir.

Também sei, agora, a sensação de quem deixa tudo para trás, o que é estar num diferente fuso horário, em que os nossos serões são sem notícias do lado de lá. Sei o quanto alegra receber uma mensagem de carinho e o quanto entristece o silêncio de quem nada diz. Sei agora o que é aceitar a possibilidade de cair no esquecimento, e combato ainda mais a tentação do ressentimento. Sei muitas coisas agora, e ainda vou só a meio. Há outras tantas que ainda vou aprender. Todas elas servem para as registar na mente e aplicar para o futuro. Não são um lamento, são aprendizagens necessárias, porque nada nesta vida se aprende sem esforço.

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