Pertencer

Esta é a nossa “família” aqui.

Na semana passada, no tempo de oração de mulheres, foi a primeira vez que senti que talvez pudesse pertencer um dia a este lugar. Talvez seja isto que os estrangeiros ou emigrantes sentem quando mudam de terra: que se encaixam aos poucos mas que nunca são realmente desse lugar, e se adequam a esta ambivalência de sentimentos. Senti que poderia eventualmente vir a pertencer, que poderia ter uma voz no futuro e uma participação. Sim, o tempo aqui tem sido de poucas falas, não por falta de vontade minha, mas porque o ambiente é mesmo assim e eu não tenho propriamente facilidade em forçar conversas. Enquadro esta dificuldade de inserção no facto de isto ser uma novidade – por aqui, os estrangeiros não abundam e há notoriamente uma dificuldade em enquadrar tudo o que é diferente. Nós somos diferentes).
Ao mesmo tempo, acho que o meu sentimento de pertença talvez se tenha dado, não tanto porque as circunstâncias mudaram, mas porque os meus parâmetros de avaliação têm vindo a ser colocados em causa. A forma de as pessoas se relacionarem é diferente, ponto final, e não vale a pena demorar-me em explicar isto ou até avaliar. Aquilo que para nós portugueses é sobrevalorizado como espontaneidade e empatia, aqui são critérios que valem zero se não és de um determinado setting.

Isto tem sido algo muito valioso para me situar na forma como eu recebo os que vêm de fora quando estou em Portugal. Eu, que sou geralmente uma pessoa que se considera atenta, pergunto-me quantas vezes terei demorado em ir até alguém (e agora sei, para quem não tem amizades no sítio onde chega, duas semanas podem ser uma eternidade), quantas vezes terei aceitado o silêncio de um estrangeiro, quantas vezes terei demorado em fazer questões que demonstrem interesse, que ajudem à integração.

Eu, que escrevi um capítulo sobre hospitalidade (aqui), saio com estas noções ainda mais reforçadas. Hospitalidade não é entretenimento, não é refeições ou convívio. Hospitalidade é ir ao encontro do outro e caminhar uma segunda milha, mesmo quando nada temos em comum. Hospitalidade é cuidado e interesse.

Nestas semanas longas e sempre iguais, tenho aprendido a questionar-me acerca de como me relaciono no meu país, o que me liga a outros e quais são as expectativas que coloco no meio disto tudo. Tenho muito a aprender ainda, mas Deus está-me a ajudar e vai continuar certamente. Estou agradecida por estas dificuldades, porque elas me ajudam a ver aquilo que eu preciso melhorar do lado de lá.

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