Somos bichos de hábitos

Da janela do carro, a vista é esta e tem sido nada menos que isto nestes quatro meses: beleza que nem o baço do vidro consegue diminuir, de tão esplendorosa que é. Vemos fardos de palha pela estrada, casas abandonadas, casas requintadas, cavalos, celeiros, vacas e garças, uma panóplia sem fim cheia de excentricidade que sim, é como nos filmes.

Aqui, conhecemos pessoas que nunca viram o mar e estão pouquíssimo raladas com isso. Pessoas que nunca puseram os pés numa grande cidade e não tencionam fazê-lo. Pessoas que foram à Times Square e juraram para nunca mais, de tão confusas e claustrofóbicas que ficaram. Pessoas que acham muito estranha essa coisa de vivermos em prédios uns por cima dos outros. Pessoas que buscam o isolamento e compram mais propriedade só para garantir que nos 200 metros ao redor não é construída nenhuma casa. Pessoas que vivem mesmo no meio do nada. Todas estas formas de estar colocam em causa os meus paradigmas de normalidade e do que é bom para viver.

Tinha uma ideia romântica de eventualmente querer viver no campo e descobri que na prática isso depende muito do campo e que sou uma mulher da cidade. Num país pequeno como Portugal, viver no campo nunca significa estar muito longe da cidade onde tudo acontece. Aqui, viver no campo pode significar não viver muito longe da cidade, mas até a cidade aqui é diferente de uma cidade europeia. Estamos no sul dos Estados Unidos e cidade aqui nada tem que ver com Nova Iorque ou Seattle, onde já estivemos. Aqui, até a cidade é calma, o trânsito que acontece pode ser muito moderado, e pelo facto de tudo acontecer cedo e terminar cedo, podemos dar connosco ao final da tarde com a sensação de viver num mundo fantasma onde ninguém habita (já está tudo em casa).

Apercebo-me que caminhar é muito importante para mim, tal como para estas pessoas é importante ter largueza de espaço. Elas não vivem como nós a desejar sair de casa para espairecer porque elas não se sentem aprisionadas em apartamentos como nós. Porque tudo nesta vida é relativo e uma questão de hábito, aquilo que eu tomo por essencial à manutenção da sanidade mental, para o meu vizinho do lado isso pode ser um conceito de que ele nunca ouviu falar.

Saio daqui a amar mais o mundo, não porque Portugal é melhor do que aqui ou aqui é melhor do que Portugal. Amo mais o mundo pela sua diferença e embora me seja difícil imaginar se aqui tivesse de viver, também sei que o regresso ao trânsito de Lisboa e subúrbios terá os seus desafios e há coisas das quais vou ter muitas saudades. O que me leva a amar mais o mundo é saber que Deus está em qualquer parte dele, e que não são as cicunstâncias que definem a minha forma de estar, é a minha alegria em Deus. Se ele me chamasse a viver sem mar e eu aceitasse porque a minha alegria está nele, viver sem o mar não seria assim tão dramático, entendem?

Isto é o centro da cidade de Jackson ao final da manhã de um dia de semana. Não parece uma cidade fantasma?

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