Take it all till all i have is open hands

Há uma música da Laura Story, muito ouvida por mim nos últimos tempos, cuja ênfase está em termos mãos abertas para o que Deus tem para nos dar para fazer. Para as mãos estarem abertas, precisam estar vazias e despojadas, e como largar tudo o que temos e nos dá confiança, realização, segurança, reconhecimento, é das coisas mais difíceis de fazer, ela expressa o desejo a Deus que lhe tire tudo a que está agarrada: cada sonho, cada plano, cada desejo, cada coisa que desejamos alcançar e que não estejam focadas em Deus, mas também que lhe tire todas as culpas, as vergonhas, medos e fardos que impedem de avançar.

Esta era a minha oração constante e neste dia em particular. Por esta fase, sentia que muita coisa que eu via como boa já me tinha sido tirada e que a minha vida já era vivida de mãos abertas. Já me tinham sido arrancadas as perspectivas profissionais, o crescimento da minha família tinha sido feito a um ritmo alucinante, aquela que era a visão de família e trabalho tinha sido virada do avesso, enfim: nada na minha vida tinha sido acertado sem me terem sido arrancadas muitas coisas. Portanto, cantava esta música já com a sensação de ter feito parte dela, e não como uma oração nova. Mas ainda não era suficiente, as minhas mãos entretanto já se tinham agarrado a outras novas coisas que não era suposto, assim bem como tinham retido medos, vergonhas e culpas – uns de processos de confronto comigo mesma e que levam ao arrependimento, outras que são apenas e só fardos que me tinham sido colocados, ou até vozes mentirosas que enganam e retiram a capacidade de prosseguir.

Estes foram dias longos de meditação. A paz que Deus ia trazendo em todo o processo era libertadora, porque na mesma medida que sentia um vazio, tinha uma paz inexplicável, um alívio progressivo, uma segurança absoluta de que este despojamento fazia parte de uma disciplina amorosa do meu Pai do céu. No processo, Deus trouxe-me sentimentos em revolução dentro de mim, e uma vontade de leitura da sua Palavra, misturada com alguma dificuldade de concentração. Parecia que o meu interior, mesmo tendo todas as condições exteriores reunidas: tempo, espaço, natureza, batalhava com aquilo que eu precisava ler. Era fácil distrair-me e ficar impaciente com o calor e humidade, com os bichos que me mordiam, com o silêncio. Eu, pessoa com nenhuma dificuldade em ficar sozinha e em silêncio, combati um sentimento de solidão como nunca antes, encontrei nos salmos as minhas dúvidas, e também as respostas necessárias: ” Clamei a Deus com a minha voz, a Deus levantei a minha voz, e ele inclinou para mim os ouvidos. ” (Salmos 77:1), e fui enumerando tudo aquilo que Deus já tinha feito na minha vida, ao meu redor, e nos que me rodeiam. Dei comigo a exclamar: “Eu me lembrarei das obras do Senhor; certamente que eu me lembrarei das tuas maravilhas da antiguidade. Meditarei também em todas as tuas obras, e falarei dos teus feitos. O teu caminho, ó Deus, está no santuário. Quem é Deus tão grande como o nosso Deus?” (Salmos 77:11-13)

A cada salmo que lia, além deste, encontrava um conforto crescente, uma sensação de que o desconhecido que estava para chegar era trazido pela mão amorosa e correctora do meu Pai do céu, e que nada me faltaria dentro daquilo que eu necessitava. Com o passar dos dias, experimentei largar o que ainda teimava em agarrar, e à medida que largava aquilo que tinha como precioso, Deus retirava também aquilo que não estava ao meu alcance: culpa, vergonha, dores. Foi um desbaste progressivo, doloroso e cheio do amor de Deus.
Pude experimentar, como está escrito no Salmo 36 a grandeza do amor de Deus, a sua fidelidade que se estende até às nuvens, a sua misericórdia mais funda do que o mar. Que alegria, que âncora, que esperança! Encontrei muitaesperança à medida que Deus me falava, corrigia e consolava.

Hoje canto esta música que tanto gosto com uma nova alegria, sabendo que as minhas orações podem ser respondidas de formas bem desconfortáveis, e isso faz parte. Hoje vivo confiante que Deus precisa mesmo fazer esse trabalho contínuo de me arrancar tudo aquilo que agarro como se de um íman se tratasse, e o Espírito Santo me dá a determinação para nem sequer me aproximar do que não é para eu pegar. E assim, a parte final da música: “Não tenho medo que possa perder, a minha maior alegria é ter-te a ti, Senhor” é uma realidade hoje que, essa sim, não vou largar e Deus não me vai arrancar nunca, porque essa é a vontade maior dele para a minha vida.

Foto de cima tirada em Madison, Lake Cavalier em Agosto de 2019.