"Senhor Deus, tens a certeza? Eu acho que não consigo…"

A estudar o livro do Êxodo, chegamos aquela parte em que Moisés vê o arbusto que arde mas não se consome, e Deus se revela a ele de forma pessoal. Em todo este cenário fantástico, em que Deus fala directamente com Moisés, eu não consigo deixar de me identificar com este homem. Ele fica cheio de medo, por tudo o que está a acontecer, e também por tudo o que imagina que virá. Ele conhece bem o palácio do Egipto, ele foi criado lá. Ele fugiu do Palácio porque, num acesso de fúria, matou um soldado, e por causa disso a vida dele corre perigo. Moisés tem medo, e por isso se sente incapaz de ser o responsável pela tarefa para a qual Deus o está a nomear. Mesmo presenciando o fenómeno extraordinário que é estar na presença de um arbusto que arde mas não se consome, ele duvida que semelhantes coisas possam acontecer debaixo da sua liderança.

Mas é aqui neste primeiro ímpeto de avaliar o contexto desta cena, que podemos dar connosco em uma de duas avaliações, sendo que a primeira é questionarmos: como é que é possível Moisés temer mais a homens do que a Deus? Então ele não vê que Deus pode tudo, é ele quem pode amaciar o coração do Faraó, é Deus quem pode libertar o povo da escravidão e realizar milagres, é Deus quem vai à frente e ele não percebe que, a fazer parte desta aventura, ele é um mero instrumento nas suas mãos? Moisés, ao vacilar, demonstra ter mais receio do julgamento de homens, mas não está bem a alcançar o que pode significar estar debaixo do julgamento de Deus. Não é à toa que lemos em Hebreus: “Coisa terrível é cair nas mãos do Deus vivo!”. Não é por acaso que ele precisa descalçar-se quando se aproxima da sarça, porque Deus é santo! Quem lhe está a dar ordens é perfeito, ele é o único Deus, não há nada que fuja ao seu controlo, e Moisés, mesmo sabendo disto tudo, vacila.

Esta é a primeira abordagem. Mas podemos ter uma segunda: Moisés sente-se inadequado, Moisés duvida das suas capacidades. Moisés não se sente à altura de sequer representar Deus. Apesar do medo, ele na verdade conhece o Palácio e sente que não tem capacidade de liderar e discursar perante o Faraó. Ele sente que, apesar de lá ter vivido, a sua vida no campo é a que lhe assenta melhor. Ele não se sente com forças para conduzir uma multidão e enfrentar semelhantes responsabilidades.

Eu acho que estas duas avaliações não são inconciliáveis, e sinceramente acho que encontramos na Bíblia respostas e fundamentos que nos ajudam a encontrar espaço para estas duas reacções que podemos ter. Vemos na Bíblia que um dos requerimentos para servir a Deus é precisamente uma constante inadequação para as tarefas que somos chamados. Vemos por todo o lado exemplos de pessoas chamadas a serem frente avançada de algo e que respondem com: “Eu, Senhor? Eu não sou capaz. Estás a ver aquele? Ele fala muito melhor do que eu. Não me mandes a mim.”

Há um lado de serviço que tem de, obrigatoriamente, não encaixar em nós. Porque servir ao nosso Deus está muito além das nossas qualidades ou personalidades, isso significa que precisamos depender do que Deus vai fazer e reconhecer que não será pelas nossas forças. Isso não significa que Deus não vá ao encontro daqueles que são os nossos pontos fortes e os use, mas há um lado de incapacidade que precisa estar presente. Sendo que, à medida que vamos crescendo em maturidade, esta segurança em quem Deus é e o reconhecimento de que somos inadequados, só aumenta.

A nossa fé cresce, não porque somos pessoas mais bem resolvidas connosco mesmas e mais seguras das nossas capacidades, mas porque de facto aprendemos que somos nada comparados com Deus e que é ele que faz os milagres, é ele quem convence corações, é ele que abre e fecha portas, é ele que mantém este Universo a funcionar. Aprendemos que não devemos ter medo dos homens porque não há mal que nenhum homem possa fazer sem a permissão de Deus, por isso não temos medo da quebra da nossa reputação, medo de perigos. O único temor que devemos ter é o da avaliação de Deus.

Tudo está nas mãos de Deus. É ele quem faz tudo, é ele que nos dá o privilégio de o servirmos, é ele que nos deixa questionar constantemente, como deixou com Moisés: “A sério que queres que seja eu, Senhor?” e ele, na sua paciência infinita, responde: “És tu que vais fazer isto, precisas de confiar em mim.” E nós aprendemos a confiar mais e mais, alimentando-nos da sua Palavra, conhecendo melhor quem Deus é, reconhecendo a nossa insignificância e duvidando menos, cada vez menos.