Amor ao próximo na era da COVID-19

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Li este texto esta manhã aqui, e senti o desejo de o ver traduzido. Em momentos em que pensamos tanto em nós e na nossa saúde, os cristãos são chamados a mais. Aqui fica!

“Mais de 130.000 casos confirmados. Quase 5.000 mortes. Países inteiros em isolamento. Acesso esporádico a análises. Não existe vacina. Estas manchetes lembram os cenários estranhos dos livros de ficção científica, mas agora representam a realidade à medida que o coronavírus domina o mundo.

Infelizmente as respostas à pandemia também parecem retiradas das páginas de um romance sensacionalista. As reações do público passaram do desprezo, enquanto o vírus estava limitado a outros países, ao açambarcamento de máscaras e desinfetante para as mãos, quando invadiu a as nossas fronteiras. O mercado de ações desmoronou, apresentando o pior desempenho das últimas décadas. Há lutas em mercearias devido à redução do stock de papel higiénico. Até as igrejas enfrentam dificuldades neste ambiente de elevada tensão: os pastores que continuam os cultos são acusados de irresponsabilidade social; os que cancelam, de falta de fé.

A histeria não é apenas inconveniente. As compras feitas em pânico esgotam os recursos dos mais necessitados e afastam a atenção daquilo que é a verdadeira preocupação: proteger os mais vulneráveis ​​relativamente à COVID-19. É uma questão que preocupa os pastores em todo os EUA. Tanto os líderes de mega-igrejas como os que presidem a pequenas igrejas do interior travam a mesma luta para discernir a melhor forma de orientar as congregações através da crise. É uma questão que atinge o coração do discipulado cristão, pois procuramos amar-nos uns aos outros como Jesus nos amou (João 13: 34–35).

A menos que pensemos cuidadosamente sobre quem é ameaçado pelo coronavírus e respondamos com amor e não com medo, esta é uma questão que nos arriscamos a interpretar de uma forma terrivelmente errada.

Perigos reais

Para entender por que motivo se mostrou tão difícil conter o novo coronavírus, pense na COVID-19 como se se tratasse de uma gripe comum que atinge os pulmões. Os coronavírus não são novos e, na verdade, são responsáveis por até 30% das infeções do trato respiratório superior em todo o mundo. É altamente provável que, em algum momento da nossa vida, o nariz entupido, a dor de garganta e a tosse seca, que embora incómodos raramente são perigosos, tenham surgido graças a um coronavírus.

A COVID-19 é tão contagioso quanto qualquer coronavírus que provoque uma gripe. Transmitimo-lo facilmente através de gotículas quando espirramos ou tossimos, mesmo antes de nos apercebermos dos sintomas da doença. Contudo, a COVID-19 difere de outros coronavírus porque atinge os pulmões em vez do nariz e da garganta. É por isso que a maioria das pessoas diagnosticadas apresenta febre e tosse, sem o nariz a pingar e entupido que se espera de uma constipação. É também por isso que esta situação prejudica os sistemas de saúde. A COVID-19 é um vírus altamente transmissível com potencial para causar pneumonia num número de pessoas suficientemente elevado para sobrecarregar os hospitais. A Itália está neste momento a enfrentar essa ameaça, com um aumento repentino de casos que invadem os hospitais para além das respetivas capacidades.

No entanto, a maioria das pessoas com COVID-19 não fica gravemente doente. Oitenta por cento das pessoas com COVID-19 confirmado em laboratório – e provavelmente mais pessoas que desenvolvem sintomas leves, mas não fazem as análises – recuperam em casa sem incidentes. De uma forma geral, a taxa de mortalidade deste vírus é de 3%, superior à da gripe, mas múltiplas vezes inferior à da estirpe de Ébola que devastou África. As crianças, em particular, parecem escapar aos sintomas graves da COVID-19, uma divergência surpreendente da distribuição em forma de U – atingindo principalmente as camadas mais jovens e mais idosas da população – que normalmente se observa nas doenças infeciosas.

Na sua grande maioria, as pessoas que armazenam desinfetante para as mãos e a esvaziam as prateleiras de pão não irão necessitar de cuidados médicos para a COVID-19. No entanto, com estas respostas geradas pelo pânico corremos o risco de negligenciar quem deles necessita.

Embora a mortalidade geral por COVID-19 seja relativamente baixa, o risco de morte aumenta dramaticamente entre as pessoas de idade avançada e com doenças crónicas. A mortalidade dispara até 15% em pessoas com mais de 60 anos de idade; após os 80 anos, a taxa de mortalidade por COVID-19 sobe para 22%. Embora a grande maioria da população, incluindo crianças, possa combater as infeções por coronavírus em casa, os idosos e os doentes enfrentam um elevado risco de morte. As instituições de cuidados continuados e os geriatras reconhecem os perigos, tendo emitido alertas e recomendações contra visitas sociais a lares de terceira idade e centros assistência, de modo a proteger os mais vulneráveis.

A questão que nos devemos colocar não é que mantimentos devemos armazenar na preparação para um apocalipse, mas sim como apoiar aqueles que correm um risco real de perder a vida devido a esta doença que se espalha rapidamente.

Amar o próximo

O amor ao próximo durante este período inquietante exige (1) a limitação da sobrecarga do sistema médico, para que os médicos possam cuidar dos mais doentes, e (2) a proteção e apoio aos mais vulneráveis ​​à infeção.

As táticas para reduzir a sobrecarga dos cuidados médicos abrangem as recomendadas pelo CDC e OMS para “uniformizar a curva”. Como o COVID-19 é tão facilmente transmissível, não o podemos conter completamente, mas podemos abrandar a propagação do vírus de forma a não inundar os hospitais, privando os pacientes de cuidados médicos. Muitas dessas medidas são medidas preventivas de bom senso – lavar as mãos com água e sabão durante vinte segundos (cante a música “Parabéns a você” duas vezes para cronometrar), não tocar na cara, ficar em casa quando se sentir mal, manter distância de pessoas que estejam a espirrar, etc. Em comunidades com casos confirmados de COVID-19 é prudente adotar medidas mais agressivas de distanciamento social; o Dr. Daniel Chin oferece uma excelente análise de uma abordagem sistemática e gradual a esses esforços.

Além disso, devemos familiarizar-nos com as recomendações do CDC para pessoas com elevado risco de infeção e garantir que os mais vulneráveis entre nós estejam seguros e protegidos. Aqueles para quem o COVID-19 representa o maior perigo são também aqueles que geralmente precisam de ajuda externa na gestão da vida quotidiana. O CDC recomenda que os idosos e doentes crónicos evitem multidões, contacto próximo e consultas médicas não urgentes, mas torna-se complicado cumprir todas essas diretivas se estas pessoas necessitarem de assistência com refeições, tratamentos de enfermagem ou diálise várias vezes por semana. À medida que as igrejas implementam procedimentos para proteger os idosos de doenças, também nos devemos lembrar de nos aproximarmos dos nossos irmãos e irmãs, para garantir que eles têm sistemas de apoio que também lhes limitem as possibilidades de infeção. Se as medidas de segurança os afastam das atividades regulares da igreja que eles tanto estimam, é necessário entrar em contacto com eles de forma regular e frequente, por telefone ou através da Internet, para lhes recordar o amor de Cristo durante estes dias difíceis.

Esperança suprema

A nossa esperança não reside em prateleiras bem recheadas e numa grande quantidade de desinfetante, mas no sangue salvador de Cristo, que deu a sua vida para que um dia todas as doenças e pestes desapareçam da terra (Apocalipse 21:4). À medida que as notícias são transmitidas por todos os meios de comunicação e a ansiedade aumenta, sejamos inspirados pelo amor que ele nos tem, em vez do medo que temos de nós mesmos.

Lembre-se de lavar as mãos. Lembre-se de ficar em casa quando estiver doente. Acima de tudo, lembre-se de fazer tudo isso não por pânico, mas por amor ao próximo – aquele senhor de 80 anos que se senta no terceiro banco, o nonagenário que canta no coral, o recetor de transplante no trabalho – porque Cristo nos amou primeiro.”

Autoria: Kathryn Butler – médica cirurgiã (bio completa no artigo original)

Texto traduzido com a ajuda de Carla Palhares da Costa.