Isolamento

Esta era a nossa cozinha em Pelahatchie, Mississippi. Já contei anteriormente a aventura que foi tornar esta cabana numa casa, mas recordo-me da primeira manhã em que acordei e vi o sol a bater assim na bancada. Estava perfeito. A porta da entrada (canto da imagem) chiava a cada abertura, e abri-la pela manhã era correr o risco de acordar a família inteira, porque os quartos não tinham portas e todo o barulho de uma casa em madeira reconfigura a nossa maneira de andar no silêncio. Esta casa tinha mesmo pouca coisa, e a fruta que ali se vê era a quantidade para uma semana para esta família de 6, viciada em fruta. Tivemos de aprender a racionar aquilo que antes comíamos a qualquer hora, não só porque o preço da fruta era mais de o triplo do preço em Portugal, mas porque nos encontrávamos isolados e longe de supermercados. Estávamos, literalmente, no meio da floresta, a 3 minutos a pé da nossa família.

Em todos estes momentos de alguma solidão, tive saudades de tudo aquilo que me era habitual: amigos, igreja, comida. Mas acreditem ou não, nunca tive saudades da minha casa e das minhas coisas. Não porque aqui na cabana tinha tudo (vivemos com o essencial e a nossa torradeira era uma frigideira no fogão, por exemplo) mas porque ali naquele lugar o meu coração fez a sua casa. Aprendi a viver no silêncio, aprendi a contentar-me com menos fruta, aprendi a não ter amigos por perto, aprendi a ouvir Deus. E Deus foi o que mais tive. A cada dia que acordava, e que se avizinhava longo, agradecia a Deus pela quietude, por nada nos faltar, por estarmos em família a 6 e em família com o meu irmão, cunhada e sobrinhos.

Quando cheguei a casa, em Oeiras, foi bom. Aos poucos reencontrámos as nossas coisas, a nossa cama, os nossos pertences. Mas não foi na minha casa (que eu gosto tanto) que encontrei o maior conforto. A maior alegria foi rever amigos e família, a nossa Igreja, saborear a nossa comida, comer fruta sem contar as peças, e sentir que Deus permanecia connosco da mesma forma.

Hoje, vivemos tempos em que somos novamente forçados a outro tipo de isolamento e por diferentes razões. Estamos a dosear a fruta que comemos porque evitamos sair de casa, estamos privados de estar com amigos, mas Deus continua a nossa companhia. É nele que encontramos a nossa maior satisfação e é a ele que recorremos quando a paciência nos falha. Ao mesmo tempo, não me canso de lhe agradecer por nos ter poupado de viver este novo isolamento do lado de lá do Oceano. Deus sabe mesmo o que faz e deu-nos as dificuldades do lado de lá que entendeu para descansarmos nele.

Hoje, na nossa casa, há um sol diferente na cozinha pela manhã. A rua está mais silenciosa do que o habitual e neste novo silêncio não se ouvem os bichos da floresta de Pelahatchie, só mesmo silêncio. Ainda assim, sinto Deus a cuidar de tudo, mesmo que este cenário esteja confuso e uma grande incógnita. Acredito que Deus sabe o que tem para nós, e nesta hora pedimos-lhe que tenha misericórdia dos que estão sós, dos que não têm casa, dos que estão doentes, dos que estão pelas ruas e nos hospitais a cuidar dos outros. E, sobretudo, que estenda a salvação ao nosso País. Portugal precisa mais de ti, Senhor.