Rotinas habituais e rotinas em isolamento

Perguntam-me acerca de rotinas e eu nunca sei muito bem por onde começar. Cada família é uma família e, apesar de podermos tirar ideias uns dos outros, nada é uma fórmula exacta que funciona perfeitamente. Começando este tópico, a primeira dica é esta: não há fórmulas e temos de ir ajustando diariamente consoante a dinâmica e especificidades de cada agregado.

Nós chegámos aqui com constantes mudanças e adaptações, e muitas dificuldades também. Não se iludam nem convençam que o resto do mundo consegue fazer tudo e vocês nada. Isso é meio caminho andado para a frustração. Ao mesmo tempo, não se convençam que – depois de estabelecida uma rotina – que ela não vai falhar. Não há nada pior do que nos convencermos que, passada uma fase, tudo será mais fácil. Todos os dias na vida de uma família, tenham os filhos que idades tiverem, há dificuldades e lutas. Há vitórias e alegrias. E é neste balanço que nos temos de ir encontrando.

Posto isto, e porque me perguntaram acerca de rotinas. A nossa segunda-feira começa com uma limpeza geral à casa, em que tudo fica em ordem para nos sentarmos a trabalhar. Claro que, tendo filhos com idades entre os 9 e os 15 anos, eles já sabem aspirar, limpar, arrumar e fazer o que é necessário. Mas não chegámos a esta dinâmica de um dia para o outro. Foi preciso, desde pequenos, serem habituados a fazer camas, a colocar mesa, a arrumar a máquina da loiça e a ir colocar o lixo à rua. Hoje, a arrumação da casa leva-nos pouco mais de uma hora à segunda-feira, sendo que todos os dias eles têm tarefas escaladas. Na vida pré-quarentena eles também já iam às compras, porque vivemos rodeados de comércio e foi possível treiná-los desde pequenos a fazerem pequenos recados, como ir buscar pão ou um pé de salsa. Isso está agora em suspenso.

Trabalhar juntos implica um horário e um planeamento, mas lá está: precisa ser reavaliado, sendo que neste cenário de clausura há um mês percebemos que exigir o mesmo de todos, sem o lado de exercício fora de portas e divertimento, não faria sentido. Então, o nosso período da tarde tem sido menos ocupado e mais dado a actividades extra que também têm surgido neste contexto de isolamento (autores que gostamos a lerem os seus livros, actividades online de desenho, música, filmes).

Ao mesmo tempo, por estarmos sempre em casa e não podermos sair, deixámos de ter uma hora fixa de acordar. Deixava de fazer sentido começar pelas 8h ,se pelas 15h não podemos ir a lado nenhum. Então, temos começado mais tarde e acabado mais cedo, e aproveitámos que não iríamos mesmo ter “férias” de Páscoa para continuar neste intermédio e fazer o trabalho de forma mais ligeira, porque no nosso caso considerámos que permanecer sem um rumo era mais contraproducente que outra coisa.

Posto isto, hoje é segunda-feira e limpámos a casa. Falámos sobre aquilo que vamos fazer para o dia. Isso inclui coisas diferentes e não o horário normal. Chove lá fora e tanto eu como o Tiago temos trabalho para fazer à distância, sendo que aquilo que fazemos pode esperar e ser feito ao nosso ritmo. Não temos um horário normal como os pais em teletrabalho, é bem diferente. Tenho tentado imaginar, do que vejo online em peças de reportagem, como é viver esta vida dentro de portas só com responsabilidades de ajuda no ensino e de trabalho à distância. Não deve estar fácil. O caminho do ensino doméstico passa por gerar um caminho de autonomia que se conquista diariamente, em que os pais orientam e não estão sempre como expositores de tudo. Isso não se consegue neste tão pouco tempo, está claro, sendo que ainda têm de ser intermediários para prestar contas aos professores dos filhos. Fico cansada só de imaginar!

Ao início desta clausura tive uma ideia romântica de que isto iria ser bom para todas as famílias, no sentido em que todos teriam muito mais tempo uns para os outros. Aos poucos fui vendo a pressão sobre os pais a receberem o seu trabalho habitual, junto com o trabalho de escola dos filhos, e percebi que isto iria ser um enorme teste a todos. Uma gestão complicada e imposta. Neste caminho de trabalharmos juntos, mais do que imposição, os pais precisam querer e poder escolher como o fazer. Coragem a todos. Encontrem o vosso ritmo e a vossa rotina, dentro daquilo que hoje é possível. Aguardamos todos a nossa normalidade. Seja ela qual for.