Se dissermos que não temos pecado…

É impressionante ver como, ao expor as dificuldades de um dia da minha vida, a quantidade de pessoas que surge a comentar, num misto de alívio e concórdia, como se precisassem de uma confirmação da humanidade que todos temos – e de como muitas vezes estas coisas são vividas em secretismo, no receio de julgamento ao partilharmos momentos em que tropeçamos. A verdade é que todos temos os nossos solavancos, e eles são diários – lamento informar, mas todos pecamos todos os dias, seja com pensamentos, palavras ou acções. Não há volta a dar, é um facto. Mesmo que não o partilhemos, acontece e há sempre alguém que sofre os efeitos da nossa pecaminosidade.

O que se passa comigo, tantas vezes, é desculpar as circunstâncias para momentos em que não estou a agir da melhor forma. Mas a verdade é que, apesar de muitas vezes sermos testados com os acontecimentos, eles só revelam a nossa verdadeira essência. E a minha verdadeira essência – tal como a tua – está contaminada com o mal. Por mais qualidades que vocês reconheçam em mim, eu sou pecadora e aquilo que de bom podem constatar, isso tem a ver com Deus. Fui criada à sua imagem e semelhança e tudo aquilo que eu tenho, sejam qualidades ou atitudes, inserem-se no conceito de Graça – é dom imerecido e esbanjado na minha vida, sem qualquer mérito.

A exposição de fraquezas é algo que surge na Bíblia, por todo o lado. Vemos como os escritores dos Salmos derramam a sua alma perante Deus, e na presença de outros; vemos como o apóstolo Paulo declara a sua pequenez para todos lerem, vemos como o processo de crescimento chamado de santificação inclui, a todo o instante, a correcção e a disciplina divina na vida do cristão. Somos chamados, enquanto imitadores de Jesus, a espalhar a nossa alegria e fé, e também a sermos testemunhas fiéis de como somos pecadores que precisam desse mesmo Jesus, o único homem que foi perfeito nesta terra.

Isto serve para as redes sociais e serve para a vida tal como ela é. Serve para avaliarmos o nosso comportamento e serve para avaliarmos as nossas amizades. Uma das coisas que mais me questiono regularmente é: sou uma pessoa que fala de Deus com deslumbramento, ao mesmo tempo que exponho a necessidade que tenho dele? Procuro pessoas que me ajudem na caminhada e que, elas mesmas, sejam exemplos de escrutínio e demonstração das suas fraquezas e lutas? Há cerca de de dois anos, traduzi este artigo, que fala sobre as características de uma verdadeira amizade. Um amigo é alguém que nos incentiva a continuar, e reconhece aquilo que de bom está a acontecer em nós, ao mesmo tempo que nos chama a atenção quando estamos a entortar a rota. E faz isto tudo em amor, ao mesmo tempo que reconhece as suas dificuldades e se coloca num lugar em que tem a humildade para ser chamado à atenção. É um jogo de leva e traz, todo ele recíproco e equilibrado. Parece fácil, não?

Nada fácil. Mas acredito que assumir a dificuldade do percurso faz com que o holofote para Jesus fique mais intenso. Neste processo de assumirmos as nossas dificuldades – seja desta forma, seja nas amizades que travamos – criamos empatia amorosa com as fraquezas dos outros e ganhamos espaço para nos aconselharmos. Quem quer expor dificuldades com pessoas que demonstram uma vida perfeita? Eu não me sinto nada à vontade, confesso. Vejo os exemplos da Bíblia, recheados de frontalidade acerca da dificuldade que é ser cristão num processo de santificação, e eles encorajam-me e espero que te encorajem a ti também. Expormos a nossa dificuldade fala acerca da nossa necessidade de Jesus. E parafraseando o versículo acima, se o que demonstramos acerca da nossa vida é ausência de pecado ou dificuldades, estamos a convencer-nos de algo que não somos e mentimos. Não queremos isso. Queremos cristãos que sejam inspiradores e humildes, alegres e honestos. Vamos a isso?