Casar em 2020?

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Uma das melhores coisas da minha vida é casar pessoas. Reduzido ao dia da cerimónia, o casamento é o mais próximo que as pessoas chegam de serem estrelas. Todas as atenções estão nos noivos e tudo é planeado para que eles estejam no seu melhor. Tendo em conta a indústria de casamentos, até o Zé da Esquina fica impressionante no dia em que diz sim. No Brasil, que nestas matérias vai à frente de Portugal, há noivas que vão tão abonecadas quando casam que fico com pena dos maridos no dia seguinte. Com todas as sofisticações visuais que adquiriu, talvez o casamento tenha ficado mais à rasca na imaginação popular. É preciso deshollywoodizá-lo, parece-me.

Uma das melhores coisas da minha vida é casar pessoas porque o filme em causa vai além de Hollywood. Um pastor que acompanhe um casal pisa com ele muito mais do que passadeiras vermelhas. Neste momento, a Igreja onde trabalho tem dois pares de noivos que tentam atravessar as impiedosas ondas da quarentena e finalmente aportar no matrimónio. Não está fácil. O C. e a J. ficaram subitamente sem o local para a cerimónia ao som de uma pergunta sinistramente reveladora: “casar em 2020?!”

Duvido que haja muita gente a querer ser conhecida por viver de acordo com as circunstâncias, mudando imediatamente ao sabor do que é mais fácil ou seguro. Mas, fatalmente, é isso que está numa pergunta assim, que associa o casamento a uma espécie de capricho. E, ironicamente, regressamos ao simplismo de termos o casamento como brincar ao cinema americano. Parece que ficámos todos tão amarrados a ecrãs que deixámos de conceber que seja possível existir além do que eles nos permitem.

Também por causa destas ruminações, apeteceu-me há umas semanas regravar uma canção dos Lacraus, “Filhos da Ressurreição”. Apesar de vir de uma época em que ainda tentava florear demais o que tinha para dizer, saiu-me básica. Como dá para ver, é uma canção para a Rute. É verdade que a pessoa pode acabar de ouvi-la e sacar a conclusão precipitada de que os Cavacos são uma bela família. Calma: o importante é que acreditamos, pelo menos, em ser uma família.

Quando a Bíblia nos diz que há tempo para tudo debaixo do sol, isso não quer dizer que o tempo certo é o tempo fácil. Nesse sentido mais restrito, nunca há tempo certo para coisa nenhuma porque as melhores tendem a brilhar a partir do contraste com as piores. Não vamos cair no sonsice de nos julgarmos grandes campeões só porque estamos casados. Mas, ao mesmo tempo, uma das melhores coisas da minha vida é casar pessoas e ter a certeza de que a fé, a esperança e o amor são os três frutos da estação para os filhos da ressurreição – it is never about playing it safe. Vida primeiro e morte depois, certo. E se também funcionar com morte primeiro e vida depois?

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One of the best things in my life is celebrating weddings. If you reduce marriage to the wedding day, it becomes the closer simple people will get to be stars. All eyes are on bride and bridegroom and everything is planned so that they can be at their best. When we consider the marvels of the wedding industry, even John Doe looks impressive when he says yes. In Brazil, always ahead of Portugal in this kind of business, brides carry so much make-up that I pity the husbands in the morning after. Maybe marriage suffers more today from all the visual sophistication it reached. I think we have do de-Hollywoodize it.

One of the best things in my life is to celebrate weddings because the movie goes beyond Hollywood. When a couple has a pastor side by side they step together much more than red carpets. Right now, our church has some fiancées trying to navigate through the harsh winds of the quarantine, so that they can reach the matrimony port. It’s not easy. C. and J. suddenly lost their wedding place and they had to hear this revealing question: “marrying in 2020?!”

Probably no one wants to come out as living just under the circumstances, changing according to what looks easy and safe. But that’s what’s inside a question like “marrying in 2020?!”, that links marriage to a whim. And, ironically, we get back to the early simplification of mistaking marriage to pretending you’re living inside a movie. Maybe we spend so many time around screens that existence gets defined by them.

Thinking about all of this, I made a new recording of an old song from my band, Lacraus. That song is called “Sons of the Resurrection”. Although it comes from a season when I wrote unnecessarily flowery lyrics, this one came out simple and direct. It is a song for Rute. It’s true you can hear it and jump the conclusion that the Cavacos are a beautiful family. Keep calm: we just believe in being a family. That’s it.

When the Bible tells us that there is a time for every purpose under heaven, that does not mean that a right time is an easy one. Strictly speaking, there is no such thing as a right time because the right stuff always happens coming from a contrast with the wrong stuff. Let’s not pretend we’re champions just because we’re married. But, at the same time, one of the best things in my life is to celebrate weddings because I’m sure faith, hope and love are fruits of the season for the sons of the resurrection – it is never about playing it safe. Life first and, then, death; alright. But what about death first and, then, life?

Texto publicado originalmente aqui.