Incapacidades

Dia 25 de Maio (faz amanhã um mês) acordei pela manhã e tinha deixado de ouvir do lado esquerdo. O ouvido que sempre foi meio surdo, a que fui operada na adolescência tarde demais, parecia que tinha morrido. Acabei nas urgências dias depois, com uma dose cavalar de antibiótico e cortisona, mas nada ressuscitava este amigo. Dei comigo a desejar dores, numa ânsia de identificar uma infecção tratável, mas nada. Na minha mente e coração aumentava a frustração de ver o mundo a acontecer com a sensação de que tudo me passava ao lado. Dei comigo desesperada a tentar compreender um funcionário com máscara e descobri-me impaciente e excluída do mundo.

Tem sido um mês instável, com tratamentos e intervenções, umas férias sem poder mergulhar, a perspectiva de melhoras reduzidas e uma incapacidade que pode vir a ser permanente. Tem sido um mês de compreender melhor a irritabilidade de quem passa pelo mesmo (e que eu achava exagerada), e de perceber de que afinal estou há uma vida a pedir repetições nas frases ou a ter alguém a gritar por mim, mas que não faço ideia do que é ficar mesmo sem ouvir. Neste mês, recordei tantas vezes a B., com quem trabalhei vários anos e que nunca ouviu toda uma vida. Uma mulher que me lia os lábios e me falava por sons e gestos, e que me entendia e se fazia entender, sempre prestável e bem-disposta. Dei comigo a considerar todos estes cenários – e ainda dou – e a pedir a Deus que lição é esta que eu preciso aprender, e se ela pode terminar entretanto. Não sei se ela vai terminar sem consequências de maior, mas regresso do hospital com um sentimento de gratidão. A médica que me tem atendido é afável e sensível, e tenho acesso a cuidados de saúde. Não tenho particular prazer em circular por corredores sem fim, mas eles não me são vedados nem me é cobrado um valor desmesurado por eles. Pelo contrário. Agradeço a Deus porque me dá vislumbres do seu cuidado, ao mesmo tempo que me enxota sempre que estou mais centrada em mim. Amor e correcção no meio de lições desfocadas de algo que me faz falta aprender nesta vida. Que é tanto e ainda nem sei bem o quê.