Culpa, graça e misericórdia

Quando abri o congelador e tive este déjà vu, lembrei-me da quantidade de sentimentos de culpa que se carregam na maternidade, todos eles pela comparação. Nunca se viveu numa época tão informada e, ao mesmo tempo, tão pouco livre. Sendo o acesso à informação uma coisa maravilhosa, trazendo a possibilidade de escolher de forma consciente, a verdade é que muita coisa nesta vida é uma escolha feita dentro de uma realidade possível. Não é por sabermos que aquela coisa é a melhor, que isso significa que seja a mais acertada para aquele contexto. A amamentação é só uma pequena gota num enorme oceano. Recordo-me de ter tido, desde cedo, uma relação difícil com ela, e de a bomba de leite me ser muito útil, para alimentar mais tarde em espaços públicos. Também me recordo de ter uma voz a insinuar que, apesar de ser o meu leite, a criança precisava do contacto com a pele e não de plástico. Lembro-me de sentir uma enorme culpa por me ser mais confortável, em determinados contextos, oferecer o leite desta forma. Com o passar dos anos, e dos filhos, fui-me descartando dela. Porque a culpa ronda-nos em todas as áreas, e tantas vezes, só serve para nos limitar (e a maternidade são muitos anos, é um sem fim de decisões). Percebi, também, que este e outros assuntos, podem ser formas de encontrarmos reconhecimento e valorização, e isso é tão errado. A minha identidade está em Cristo, e aquilo que eu faço reflecte aquilo que ele faz em mim. Contudo, vivo num mundo imperfeito, tenho um corpo imperfeito, e nem tudo nesta vida funciona de forma perfeita. É por isso que precisamos da enorme graça de Deus todos os dias, e apesar de toda a informação, devemos ser graciosas na forma como testemunhamos a nossa vida. Porque hoje podemos ser muito bem sucedidas numa área, mas amanhã precisaremos de muita misericórdia noutra.