Redefinir a amizade

Um dos conceitos que mais tive de reavaliar, no ano de 2019, foi o de amizade. Estive longe de tudo o que me era familiar e estava imersa numa cultura diferente, onde as pessoas se dão de forma diferente daquela a que estava habituada. Pensava como, na nossa cultura, fazemos uma diferenciação acerca de alguém nos ser “conhecido” e entre ser “amigo”. As redes sociais vieram de tal forma banalizar este último conceito, que qualquer um é nosso amigo. Há uns anos traduzi um artigo com o título “Verdadeiros amigos são difíceis de encontrar“. Vale a pena ser lido porque ele reúne, na minha opinião, aquilo que é a amizade bíblica.

Nestas minhas reflexões, e considerações sobre a forma como eu vivia e esperava ter amizades, descobri várias coisas, que creio que vêm ao encontro destas noções, e que tento viver mais seriamente hoje, no meu dia-a-dia:

A verdadeira amizade tem um custo. Se é certo que uma das coisas boas de ter amigos é o de poder passar momentos bons e descontraídos, também é verdade que a amizade é como a hospitalidade: exige de nós mais do que muitas vezes queremos dar. Exige que estejamos disponíveis para ajudar, para ouvir, para encorajar e para chorar. Para ficar em silêncio, apenas. Significa que temos de dar do nosso tempo e aceitar as diferenças do outro, na mesma medida que sentimos que podemos correr e pedir ajuda. Se pedir ajuda é um sinal de humildade, a amizade serve para ajudar e ser ajudado. A verdadeira amizade confronta e encoraja. É tão fácil passar bons momentos e nunca passar da superficialidade. Além do desabafo e da conversa de circunstância, um amigo serve para nos encorajar e nos incentivar a prosseguir e serve para nos alertar quando nos estamos a desviar. Isto só acontece com uma medida de exposição. Significa que verbalizamos as nossas fraquezas e dificuldades e assumimos o risco de ser julgados. A verdadeira amizade passará no teste da misericórdia se tiver como modelo o Senhor Jesus. Um amigo não se escuda nem finge que é perfeito, e exerce graça sobre o outro quando toma a iniciativa para se identificar com as suas fraquezas. A verdadeira amizade tem oração. O amigo verdadeiro pergunta: “como posso orar por ti?” e ora mesmo. Sabemos quando o amigo se preocupa e gasta tempo nisso, quando volta mais tarde e pergunta como estamos em relação aquela dificuldade. O amigo ora e usa versículos para confrontar e encorajar, e espelha na prática aquilo que Jesus disse: os amigos são família espiritual. Os verdadeiros amigos não desistem. Um amigo volta e permanece. Insiste mesmo quando o outro está ressentido ou desiludido e não se conforma com a mornidão das conversas básicas. A amizade exige muito amor. Ela exige entrega sacrificial. A amizade não significa que sabemos de tudo a todo o instante ou que estamos e fazemos tudo em conjunto. A verdadeira amizade sobrevive à ausência, ao egoísmo, à arrogância, à comparação. A amizade ama como Jesus amou. A verdadeira amizade não substitui Jesus. Não adianta perspectivar nos outros aquilo que só podemos encontrar no próprio Deus. A isso se chama idolatria. Só em Jesus temos o exemplo do amigo perfeito, de alguém que ama sem pecado, que se sacrifica sem se cansar. A amizade existe para espelhar Jesus e reflectir aquilo pelo qual ele veio ao mundo: para que pudéssemos ser amigos de Deus.