Ouvir mal.

Regresso à minha infância, mas já não espero uma manhã para ser atendida, e já não estou no Hospital da Estefânia. Contudo, entro na cabine insonorizada, e o painel acobreado para entrada de cabos cheira ao antigamente, ao mesmo tempo que se liga a tecnologia nova. As paredes e cartazes de tímpanos e canais acusam o passar do tempo, e os exames são tão qual os fazia há mais de 30 anos.

Sei que surgirão sons algures naqueles segundos em que não os estou a detectar, e sinto-me como a criança que quer muito passar na prova e ter um 100% mas não está à altura. Algures, não sei se ouvi “poste” ou “forte” e sinto alguma impaciência no tom da voz à terceira e quarta repetição.

Na indefinição do que se segue, recordo os anos a fio em exames, a ser recambiada para pastilhas elásticas, soprar balões e fazer muita praia, para depois então se avaliar a cirurgia. Só que desta vez só espero e mais nada se perspectiva, os desencontros entre a minha prestação e o relatório indiciam que a resolução poderá não se dar, ou não estar ao alcance de um simples aparelho ou cirurgia.

Pago 8€ e escolho agradecer e continuar a aguardar. Fui atendida a horas e irei ser chamada novamente. O mundo continua igual e, ao meu redor, chegam ambulâncias e outras vidas. Descanso em Deus.