Envelhecer

A pergunta ingénua de uma jovem grávida, acerca das eventuais mudanças no processo de amamentação, lembraram-me do meu próprio passado e do quanto hoje nos querem convencer de que devemos viver para uma eterna juventude, de preferência nos padrões 86-60-86.
Há um ano, estava prestes a regressar a Portugal, vinda de um lugar onde as pessoas se coíbem de comentar a aparência umas das outras e onde me senti bastante livre para ser como me apetecia. A largueza de estilos e condições lá é tão grande que o segundo olhar de estranheza não existe (um dia escrevo sobre isso).
Recordo-me também, de me preparar para eventuais comentários à chegada ao aeroporto de Lisboa, acerca de como estávamos (é isso que os portugueses fazem quando se encontram ao fim de um tempo de ausência: “Estás mais gordo!”, “Estás mais magro!”, “O tempo não passa por ti!”, “Pareces cansado!”). Fui poupada nesta matéria, a barba do meu marido nem por isso (ele aguenta melhor do que eu!).
Vivemos tempos em que a aparência conta tanto. Os cristãos não desvalorizam a beleza. A Bíblia fala dela, sim – mas talvez nos surpreendêssemos se nos fossem dadas a ver fotografias de referências dessa época (já para não falar de Jesus, a Bíblia específica que ele não era uma pessoa considerada bela).
Vivemos tempos em que achamos que desejo depende exclusivamente de aparência física. Vivemos tempo em que se foge de envelhecer e de assumir que o tempo passa (nunca compreenderei aquelas bocas de botox das mulheres, que é que se passou com a Nicole Kidman, minhas amigas?). Vivemos tempos em que a alegria depende de como nos apresentamos.
Vivemos tempos em que comer bem e fazer exercício físico existem para se ter uma boa forma. Enquanto cristãos, precisamos respeitar o nosso corpo, sim. Precisamos ensinar o equilíbrio aos nossos filhos, sim. Mas precisamos ir mais fundo e rejeitar estes medos e pânicos que ignoram este mundo caído. Devemos viver com naturalidade a passagem do tempo e agradecer quando é só mesmo o tempo a passar – e não chegam doenças e outros desafios. Somos chamados a viver com serenidade. Olhem as minhas rosas secas. Não estão lindas? A meu ver, ainda mais bonitas do que quando as recebi.