Rua de Acção de graças

“Aquele que oferece sacrifício de louvor me glorificará.” – Salmos 50:23

É chegada a hora do canto dos pássaros, e desde a manhã até o pôr do sol, as suas doces notas são um lembrete constante do dever e do deleite na acção de graças. Com a alegria dos seus corações, eles exultam a sua alegria pelo sol, pelas flores e pelas folhas que se abrem; e tenho ouvido a mesma canção terna quando a chuva cai, ventos frios sopram e nuvens escuras varrem o céu. No passado, os pássaros do jardim cantaram uma lição aos meus ouvidos atentos e repreenderam a minha estupidez ou a minha incredulidade com as suas canções alegres.

Ah, queridos amigos, alguns de nós não louvam a Deus nem pela metade. Nós levantamos um “Ebenézer” de vez em quando; mas lamentavelmente, falhamos em cumprir esta ordem: “Alegrai-vos sempre no Senhor”. No entanto, quanto temos para o bendizer e que doce encorajamento nos é dado à gratidão por sabermos que: “Aquele que oferece sacrifício de louvor me glorificará!” Quantas vezes somos informados, na sua Palavra, que ele tem prazer nas nossas acções de graças e louvores! O louvor que prestamos é mais precioso a Deus do que o dos anjos – pois eles não podem abençoá-lo pelo amor redentor, pelo pecado perdoado e pela bendita esperança da glória da ressurreição.

Oh! Não é para o louvor eterno de um Deus que cumpre a aliança, que pobres peregrinos -vagueando por um deserto e tendo que travar guerra constante com o mundo, a carne e o diabo – ainda possam cantar gloriosamente à medida que colocam os seus inimigos em fuga através do sangue do Cordeiro? São os vencedores que aprendem a louvar. Os dedos que usam a espada com mais destreza são os mais hábeis em tocar a harpa. Cada vez que Deus nos dá a vitória sobre o pecado, aprendemos uma nova canção para louvar e abençoar o seu santo nome. Saber que o Senhor tem prazer no teu louvor não faz o teu coração palpitar? Aos seus ouvidos soam continuamente as sinfonias eternas do universo – aquele coro majestoso que começou “quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus rejubilavam”; mas ele se volta para vocês e, com infinita ternura e amor, inclina-se para ouvir as canções de agradecimento dos seus redimidos, à medida que o abençoam por todos os seus benefícios. 

As notas fracas proferidas na terra por um coração verdadeiramente agradecido e santificado devem, eu acho, transformar-se em hinos de gloriosa melodia enquanto se elevam ao trono de Deus!

Já ouviste falar daquele homem que fez uma mudança tão notável de casa, da “Esquina da resmunguice” para a “Rua de Acção de graças”, que o resultado foi que os seus amigos mal o conheciam, porque “o seu rosto tinha perdido a expressão de preocupação, e o franzir de sobrolho constante”. Sem presumir que exista a necessidade de qualquer um dos meus queridos leitores se retirar da sua habitação actual, é colocado no meu coração o desejo de vos lembrar da alegria da acção de graças e dizer: “Engrandecei ao Senhor comigo, e juntos exaltemos o seu nome.” Que ocupação honrada é “oferecer continuamente sacrifícios de louvor!” Vivemos constantemente a orar por uma coisa ou outra, frequentemente a gastar o nosso fôlego egoisticamente num longo catálogo das nossas necessidades e desejos; mas os nossos agradecimentos são breves, e os nossos louvores constituem apenas uma pequena parte das nossas devoções.

Não é como deveria ser – e como Deus gostaria que fosse. Vestirmo-nos diariamente com “as vestes de louvor” não serve apenas para garantir a nossa própria felicidade, mas para cumprir o bendito serviço de glorificar a Deus. A oração é boa, mas o louvor é melhor. O louvor é a oração na sua forma mais rica, é a oração na mais alta espiritualidade, é a oração mais próxima do céu. A oração é a linguagem da terra, o louvor é a língua nativa dos anjos. A gratidão a Deus não é cultivada nos nossos lábios e nas nossas vidas como deveria ser. Cada momento de misericórdia deve gerar uma nota de louvor à medida que é tocada, e então os nossos dias serão um salmo contínuo. O louvor tem o poder de elevar a alma acima de todos os cuidados como se estivesse em asas.

Às vezes, quando nos sentimos frios e sem vida, e as súplicas definham nas nossas línguas, um prelúdio de louvor vai despertar a música mais profunda do coração e movê-lo a derramar a sua melodia mais terna. Estamos muito propensos a tomar as nossas bênçãos e misericórdias diárias como direitos, em vez de recebê-las como dádivas imerecidas de graça gratuita e amor moribundo e, em seguida, retornar ao nosso Deus misericordioso a plena medida de gratidão amorosa de que os nossos pobres corações são capazes. Se, olhando para trás apenas um dia, deixamos de contar as benevolências com que cada minuto foi carregado, como a retrospectiva de uma vida inteira nos deve oprimir com o peso de dívida para com o Senhor, e também, ai de mim, com um sentimento de negligência culpada de “todos os seus benefícios!”

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[Escreve acerca da viuvez] Como isto que escrevo se trata de uma “nota pessoal”, posso dizer que, na minha profunda e crescente solidão, ainda encontro o mais doce consolo em louvar a Deus pela sua vontade em relação ao meu amado e a mim, e até pude agradecer-lhe por tirar o seu querido servo desta triste terra de pecado e trevas – para a bem-aventurança e glória de sua presença eterna. Fixando o meu coração no bendito facto de que o que o Senhor faz é certo e melhor, simplesmente porque Ele o faz, sinto que a âncora está presa nas profundezas do seu amor – e nenhuma tempestade é poderosa o suficiente para tirar o barco da fé dessas amarras. Ele pode ultrapassar qualquer tempestade com ancoragem em tal refúgio. Muitas vezes, quando o peso da minha terrível perda parecia que deveria me esmagar, foi levantado pela lembrança de que, no Céu, o meu querido está agora a louvar perfeitamente ao seu Senhor; e que, se eu também puder cantar, estarei, mesmo aqui na terra, juntando-me a ele no serviço sagrado e na adoração aceitável.

Quantos de vocês, queridos leitores, serão o “cantor-mor” do nosso Deus e decidem que, doravante, o seu louvor estará continuamente na sua boca? Vamos, cada um, dizer ao Senhor, com o bom Isaac Watts—

“Enquanto eu viver, abençoarei o seu nome,

Meu Rei, meu Deus de amor;

Meu trabalho e alegria serão os mesmos,

No mundo brilhante acima.”

Susannah Spurgeon in “A Basket of Summer Fruit, capítulo 1” – tradução livre por mim