Amar não é isentar

Apercebi-me de um comentário entre duas senhoras em plena feira, em observação à criança de 10 anos que empurrava o carrinho de compras enquanto a mãe passeava de mãos a abanar (eu). Não consegui apanhar a frase completa, mas este sussurro fez-me olhar as senhoras e sorrir, enquanto pedia ajuda a Deus para exercer o domínio próprio, esse fruto do Espírito que preciso tanto.
Deus ajudou e regressei a casa em silêncio, a observar o caminho neste maravilhoso dia de sol, enquanto pensava em todas as coisas da cultura portuguesa que abomino, e esta é uma delas.
Somos uma cultura de mães. Mulheres que fazem tudo e se orgulham de o fazer, mulheres carregadas de compras, com a mochila dos filhos às costas, enquanto eles vêm a comer pão com chouriço no caminho de regresso a casa.
Ser boa mãe, em Portugal, é garantir que os filhos não se constipam, têm sempre um casaco e comida na mesa e fora dela (um lanche na ida ao parque é essencial, “não vá o menino ter fome”).
A infância, aqui, é uma espécie de momento em que se adiam responsabilidades (“são tão pequeninos, não lhes roubemos a infância, quando forem crescidos logo se vê”).
Achamos que o amor é um mimo isento de exigências. Achamos que atribuir responsabilidade é suspender a infância. No caso dos rapazes, queremos criar homens que se sacrifiquem pelas suas famílias, que não amuem a cada contrariedade e que não fiquem à espera que as suas mães – ou mulheres – lhes tratem da vida. Mas não o fazemos desde cedo, porque “coitadinhos”.

São muitas as lutas internas nisto de educar. Entre a cultura em que cresci, as verdades em que acredito, e a minha incapacidade, as batalhas são muitas. Não tenho certezas absolutas sobre este caminho, a única certeza que tenho para hoje é esta: amar não é isentar.