[Em Janeiro, a revista Cultivar e Guardar convidou-me para escrever um artigo sobre Igreja. Ora, por essa altura, a pandemia estava no auge em Portugal, contávamos meses de privação e entrávamos num segundo confinamento muito penoso para todos. A cada tentativa de escrever o texto, desistia. O mundo fora daqui parecia continuar normal, eu sentia-me numa prisão rodeada de más notícias.
Talvez por isso, este texto se inicie em forma de diário. Não precisava de um ano de pandemia para saber a importância da igreja, mas certamente que a pandemia reforçou que a igreja é insubstituível.]

Oeiras, Portugal, 16 de Janeiro de 2021

Começo este texto a um domingo à tarde, no sofá da minha casa, com o aquecimento ligado. Lá fora estão dez graus, está vento e chove. Um dia perfeito para ficar em casa – diriam alguns. No meu coração, nada me soa a perfeição. Os números da pandemia da Covid-19 em Portugal classificam-no neste momento como o pior país do mundo no que toca à taxa de contágio e mortalidade desta doença, e por causa desse perigo, hoje não tivemos serviço de culto – nem sabemos quando voltaremos a ter. Pela manhã, não houve a correria habitual, nem escolha de roupa. Sentámo-nos, eu e as crianças, no sofá – alguns ainda de pijama-, pelas onze horas, enquanto o marido e pai desta casa fazia o directo das instalações da nossa igreja – lugar que carinhosamente também gosto de chamar casa de oração. Já regressou, já almoçámos e estamos todos juntos novamente. São agora três da tarde, longe de o dia terminar.

Este é o primeiro domingo de um número indefinido, e já tenho saudades. Sou muito agradecida por esta invenção chamada Igreja. Graças a Deus pela Igreja do Senhor, e graça a Deus pela igreja local. Não podemos viver sem ela, não fomos feitos para existir enquanto cristãos sozinhos. Não sou eu quem o digo, foi Jesus quem ensinou, o tempo todo que viveu nesta terra. Em Efésios lemos que a Igreja era algo tão importante para o Senhor Jesus, que foi por ela que ele morreu (5:25); na mesma carta, vemos como a igreja é o corpo de Cristo, que precisa de todas as partes ligadas, ajustadas e em funcionamento, para que se desenvolva, permaneça e cumpra a sua função.

Estes tempos de pandemia têm demonstrado a anormalidade que viver sem o corpo de Cristo pode ser.

30 de Janeiro de 2021

Continuamos em casa. Queria tanto escrever sobre a importância da Igreja, mas não encontro palavras, só saudades.

14 de Março 2021

Praticamente dois meses se passaram e muitas foram as vezes que regressei a este texto, e que o reescrevi e apaguei. No espaço de um ano, temos tido muitas restrições e mal sabia eu que este segundo isolamento duraria largas semanas e seria tão penoso. Com ele, estaríamos novamente impedidos de estar com família, amigos, igreja, permanecendo em casa num crescendo de cansaço mental e falta de concentração. As pessoas, até as menos exigentes na vida social como eu, queixam-se de falta de afectos. Não fomos feitos para viver sozinhos, e isso é lembrado na história da Criação. Mais do que uma mulher para procriação, Adão precisava de companhia. E Deus planeou companhia para todos, de diferentes formas (“Não é bom estar só” – é o que ecoa em Génesis).

Hoje é novamente domingo, a Primavera está a chegar, estão 21 graus e o sol brilha. Após oito semanas (OITO) regressámos à casa de oração. As medidas de segurança mantêm-se, e vemos parcialmente alguns dos nossos queridos. Estamos distribuídos por três serviços de culto, mas estamos de volta ao canto congregacional, ao louvor comunitário, à exposição da Palavra, à comunhão da Ceia do Senhor. Ah, não tem preço nem comparação possível.

Sempre que vozes se levantam para relativizar o assunto Igreja, há várias coisas que me lembro e que vejo na Bíblia como o padrão de Deus para a nossa vivência enquanto corpo de Cristo.

PESSOAS DE CARNE E OSSO, JUNTAS.

A primeira: Jesus veio em forma de homem. No seu plano de salvação, Deus poderia ter escolhido muitas formas de o fazer, mas escolheu trazer um bebé, que cresceu no meio de nós, com carne e osso, para ser o Emanuel – Deus connosco. Jesus constituiu o seu grupo de companhia, os doze discípulos, e com eles ensinava no meio das multidões. Jesus andou no meio de nós e deu o modelo de ceia do Senhor em refeição, ao redor de uma mesa. Ser Igreja é viver junto, é conviver, é recordar, é amar, é exortar. Foi Jesus que inventou a Igreja, ele foi bem explícito quando disse: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada.” (João 14:23). Encontramos também na carta que Paulo escreve aos Efésios, a explicação de que Jesus nomeou os apóstolos para serem a fundação da Igreja e ele como a pedra angular.

MUITO MAIS DO QUE UM LUGAR, MAS UM LUGAR

E é aqui neste ponto que pessoas relativizam acerca da necessidade de existência de um edifício, porque “a Igreja são as pessoas, não é a casa” e fazem disso um argumento para desvalorizar a importância da igreja local. Sim, é certo que a igreja é um conjunto de pessoas, não um lugar. A igreja é um corpo, não um edifício. A igreja é algo que os cristãos são, não apenas um lugar aonde os cristãos se dirigem. Sim, também sei que a igreja é uma família que se deve reunir, estudar, comer, ter comunhão, orar e servir durante a semana, não apenas ao domingo. Eu sei dessas coisas. Mas também sei que a igreja é marcada, conhecida e animada pelas suas reuniões regulares, rítmicas e ordenadas (“E consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras, não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia. – Hebreus 10: 24-25). Um corpo que nunca está junto não tem vida nem funciona, da mesma maneira que uma família que nunca se vê ou se encontra, se desliga.

IGREJA É COMPROMISSO

Se dúvidas houvesse para mim, 2020-2021 veio mostrar claramente que louvor online não serve para um estado permanente. Transmissões de serviços de culto não têm rostos presentes e não têm pão e vinho partilhados (não, não acho que deva ser feita ceia online). Claro que tempos extraordinários exigem medidas extraordinárias, e graças a Deus pela tecnologia. Mas não chega. Igreja implica trabalho junto, confissão junto, amar junto. É claro que pode ser, para muitos, mais confortável uma igreja à distância, em que não prestamos contas a ninguém, em que todos parecemos ter vidas muito direitas, em que mudamos de comunidade como quem muda de café. Mas igreja é feita para permanecer e comprometer para os tempos difíceis. É para isso que se fazem votos de casamento, certo? Os noivos prometem que ficam juntos na alegria e na tristeza, nos bons e maus momentos. Porquê? Porque se é fácil ficar nos bons momentos, nos maus a vontade que dá é de ir embora. A aliança que fazemos em igreja é precisamente idêntica: somos acordados quando estamos a querer dormir na nossa inércia espiritual, somos incentivados quando somos firmes, encorajados quando cansados, somos chamados a sair do nosso egoísmo e a nos sacrificarmos como Jesus fez.

NÃO É ACERCA DE MIM

Pode ser que a música escolhida nem seja o teu gosto de louvor, ou que o edifício não tenha o estilo que aches mais confortável, ou que não encontres no imediato aquela pessoa mais velha que sentes que precisas para te ensinar mais individualmente. A igreja onde estás pode não ser a igreja que idealizaste na tua cabeça, mas esses critérios em si não são a base de escolha ou de permanência numa comunidade de fé. Se a tua Igreja prega a Palavra de Deus, pratica as ordenanças do Senhor, tem serviço activo, então pensa além de ti. A igreja é mais do que consegues ver, e Deus tem um propósito para ela, mesmo quando as circunstâncias não parecem as ideais. Igreja são pessoas nas suas lutas, de diferentes idades, raças, contextos, e esta riqueza é única.

Em todos os momentos e em todos os lugares, a reunião dos santos é um meio de graça estabelecido por Deus para edificar o seu povo. Os cristãos reúnem-se para adorar não porque é tudo perfeito, mas porque assim deve ser feito. Reunimo-nos porque o Deus que adoramos instituiu este encontro de pessoas como a principal forma de amadurecer, fortalecer e confortar. Não é apenas quando as músicas, orações, sermões ou aulas da escola dominical são certeiros e nos arrebatam a alma. Encontramo-nos porque Deus edifica o seu povo por meio dos nossos encontros todas as vezes, em todos os lugares, sem falta, não importa como nos sintamos. Somos nutridos juntos para brilharmos o tempo todo.

TESTEMUNHO

“Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros”. – João 13:35

Jesus estava prestes a morrer e relembra os discípulos do que espera deles na sua ausência. A lógica é: eu amei-vos, e é assim que vocês se devem amar uns aos outros. Por causa disso, as pessoas notarão que há algo diferente em vocês, que se amam verdadeiramente. Espantoso! E como é que isto pode ser feito? Vivendo em igreja, de forma visível. Se é certo que somos responsáveis na nossa individualidade por onde quer que passemos a sermos sal e luz no mundo, só sendo igreja em conjunto podemos espalhar o que é amar como Jesus amou. Servindo os outros, sendo igreja onde passamos, sendo hospitaleiros, servindo, sendo atentos.

Ser Igreja é único e maravilhoso, Deus pensa em tudo de forma perfeita e arquitectou este plano como parte fundamental do nosso caminho na terra, em preparação para o que virá na eternidade. O que iremos ser juntos por todo sempre: igreja em louvor e adoração, perfeitos e à imagem do nosso Senhor Jesus. Comecemos por imitá-lo aqui e agora.

Versão do texto em português do Brasil, aqui.