Não há remédio para a saudade

Há 20 anos, era sábado e eu estava em casa do meu namorado, prestes a sair para a Gulbenkian para ver um filme de animação. Ligava à minha mãe, a saber como estava a minha avó – que vivia connosco e cuja saúde decaía a cada dia. Não estava bem, tal como não parecia estar há largos dias. Os níveis de oxigénio estavam no máximo e fazia-se o possível para evitar uma ida ao hospital. Regressei a casa e abandonei o plano.

Não sei precisar quanto tempo ali estivemos, eu com os meus irmãos, enquanto o olhar da minha avó se desvanecia e a respiração abrandava. Recordo-me da inquietação da minha mãe, entre o constatar o que estava a acontecer e a incerteza de qual o momento de chamar a ambulância, sabendo que o desejo da minha avó era não ser levada para o hospital. E não foi. A avó Anjos, como lhe chamávamos, partiu desta terra com a serenidade com que a habitou. Com poucas palavras, sem grande estrilho, com imensa ternura.
Sempre que chego a 21 de Abril agradeço a Deus a vida desta avó, que apesar de uma vida marcada de muitas dificuldades, transportava uma quietude invulgar, e me ensinou que no silêncio também encontramos palavras.

[o desenho foi feito há uns anos pela @sarafalcoeiras]