Últimas palavras

A querer tomar o lugar de uma filha – a minha mãe – nesta última homenagem ao avô, estas foram mais ou menos as palavras que me saíram (e que teria sido boa ideia escrevê-las antes, confiante que fiquei que não me emocionaria).


Tive o privilégio de assistir, nestes últimos dias, ao privilégio que o meu avô teve no final da sua longa vida, rodeado de cuidados, carinho e amor de filhas que tomaram para si a responsabilidade de lhe dar a dignidade de morrer sossegado, sem idas desnecessárias a hospital. E assim foi. Um verdadeiro privilégio, morrer sem sofrimento e tranquilamente.
Quando, na passada quarta-feira, assistia ao arrumar dos pertences na casa de repouso, não se achava a Bíblia do avô. Não estava na mesa de cabeceira, não estava no roupeiro, não estava arrumada em lugar nenhum. Depois de algum tempo, a Bíblia foi achada no piso inferior, na sala de convívio. Isto deixou-me muito contente, levando-me a crer que – até onde as suas capacidades lhe permitiram – o meu avô tomou a leitura da Palavra como companhia. Entre os muitos textos sublinhados, sobressai o Salmo 139, que acontece ser um dos meus salmos preferidos também, e por isso o passo a ler:

“Senhor, tu me sondas e me conheces.
Sabes quando me assento e quando me levanto; de longe penetras os meus pensamentos.
Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos.
Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, Senhor, já a conheces toda.
Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões a mão.
Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir.
Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?
Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também;
se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares,
ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá.
Se eu digo: as trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite,
até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma coisa.
Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe.
Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem;
os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra.
Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda.
Que preciosos para mim, ó Deus, são os teus pensamentos! E como é grande a soma deles!
Se os contasse, excedem os grãos de areia; contaria, contaria, sem jamais chegar ao fim.
(…)
Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos;
vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.”